Além da sala de aula, o que faz o profissional de Letras?

Foto de Moisés Aquino

Uma das coisas que me assombrou durante meus anos de faculdade foi o estereótipo que persegue todos estudantes e profissionais de Letras. O famoso: “Você faz Letras? Ah, então você é professora de português, né?”

Esse estereótipo me incomodava pelo simples motivo de que desde que entrei no curso, meu objetivo sempre foi trabalhar com edição e revisão de textos. Então, aproveitando o Dia do Profissional da Letras, 21/05, decidi escrever este texto, que tem como objetivo ampliar a visão do que faz uma pessoa dessa área para além da sala de aula. Em relação aos outros estereótipos, bem, deixemos para um texto futuro.

Livros, estante antiga de madeira, lousa de giz, mulher idosa de óculos, coruja, flor-de-lis, sala de aula, alfabeto: eu tenho certeza que quando o assunto é Letras, pelo menos um desses itens vem na sua cabeça, né? Isso acontece porque na nossa memória coletiva sempre associamos os profissionais do texto a uma certa rigidez e tradição escolares — mesmo que esses ambientes também sejam múltiplos.

Existe certa verdade nessa visão, principalmente quando o assunto é ler e estudar bastante. Porém, não somos estudiosos apenas pelo amor e defesa do conhecimento, e sim porque o mercado de letras exige isso de nós, independente da função exercida.

Entretanto, rigidez é algo que não combina com o profissional de letras contemporâneo, uma vez que todos os dias o mercado se renova em novas possibilidades. Vamos conhecer algumas delas:

Edição e revisão textuais

Apesar terem o mesmo objetivo — a melhoria de um texto escrito — essas funções são executadas em etapas diferentes ou conforme a demanda solicitada.

Em um processo completo da publicação de um livro, por exemplo, a edição é sempre a primeira etapa. Nela, o profissional faz uma análise profunda da maneira como a ideia está estruturada e se há erros como contradições, ambiguidades, repetições, incoerências, inverossimilhanças e tantas outras falhas textuais que prejudicam a leitura. Ele acompanha as decisões criativas do autor primando a qualidade do texto.

A revisão é a etapa seguinte. Após esse alinhamento, o profissional se atenta na ortografia e gramática, além de adequar a linguagem conforme o objetivo do texto. Por exemplo: se um livro é destinado para um público-alvo infantil, o revisor deve observar se as sentenças escolhidas pelo editor e autor estão de acordo com esse público. Portanto, é importante ressaltar que a gramática é uma referência, mas nem sempre a decisão desse profissional estará de acordo com ela.

Nem sempre as editoras oferecem esses serviços, mas eles podem ser contratados em um processo de autopublicação. Ah, e esse processo pode acontecer fora das editoras, como um texto que será publicado em redes sociais, por exemplo. Você já conhecia ou já contratou esses trabalhos? Tem alguma dúvida sobre eles? Deixe nos comentários.

Ghostwriting ou escrita fantasma

Sabe aquele influenciador digital que está lançando seu quinto livro no ano? Não quero ser fofoqueira, mas é bem provável que ele não seja o autor do próprio livro, e sim que tenha contratado um ghostwriter.

Ghostwriter, ou escritor fantasma, é um profissional contratado para escrever um livro anonimamente, cuja autoria é assumida pela pessoa que contratou o serviço. Para isso, o escritor monta uma série de perguntas pertinentes e após obter todas as informações necessárias, começa a escrevê-lo.

O prazo para a entrega do trabalho, assim como o valor do serviço, varia de acordo com o tamanho e nível de complexidade da demanda. Uma vez findada a escrita, o contratante lê e valida o material. No fim, o escritor cede os direitos autorais para esse.

E não, essa não é uma prática criminosa; na verdade, é bem comum no mercado tanto editorial quanto publicitário.

Leitura crítica

Mais do que simplesmente opinar se gostou ou não da obra, o leitor crítico deve analisar a partir de um ponto de vista amplificado, nem macro, nem micro – ambos!

A função desse profissional é justamente observar isoladamente os personagens, a ambientação, os trechos, os diálogos e, também, como correlaciona todos esses elementos no conjunto da obra. A partir de suas análises, os demais envolvidos naquele texto, além do próprio autor, podem alterar o que for necessário para torná-la mais “alguma coisa” — mais interessante, mais sombria, mais sóbria, etc.

Quer um exemplo? A protagonista de “Harry Potter”, Hermione Granger, “perdeu” sua irmã na versão final da obra porque foi recomendado pelos leitores críticos a não adentrar nesse aspecto familiar no primeiro livro da saga, ficando sem timing de encaixá-la posteriormente.

Portanto, ser um leitor crítico não é apenas ler, mas sentir e entender a história como profissional, leitor, editor, autor e todos os demais envolvidos. É necessário estar atento ao público e sua demanda, sem suprimir a essência da própria escrita.

Tradução e intérprete

Existem vários conceitos para definir essa ocupação, mas eu vou usar o meu favorito: a tradução é o ato de recriar um texto em uma língua de chegada na língua desejada.

Assim, existem dois tipos de recriação: a tradução escrita e a tradução simultânea. A primeira, como o próprio nome já diz, refere-se à traduções que são feitas de materiais escritos: livros, artigos, etc. e subdivide-se em dois processos: tradução e versão.

Nesse sentido, a tradução é o ato de recriar um material de uma língua estrangeira na língua materna — do inglês para o português, por exemplo. Já a versão é o processo oposto — recriação de um texto na língua materna para a língua estrangeira.

O tradutor é, assim como o editor e revisor, um profissional que toma decisões, uma vez que cada escolha pode mudar o sentido daquilo que está sendo dito.

Pode-se também considerá-lo o cocriador da obra, uma vez que seu apesar de seu trabalho consistir em reescrever um texto que já existe, ele recria esse texto conforme as possibilidades, recursos e limitações que a língua de chegada oferece.

A tradução simultânea, por outro lado, refere-se a esse processo feito em tempo real durante o ato de comunicação de terceiros: palestras, aulas, conferências, etc. O intérprete possibilita a comunicação entre duas pessoas de diferentes nacionalidades e também entre ouvintes e surdos.

Mentoria e consultoria textual

Essas ocupações consistem em direcionar a redação de terceiros conforme o objetivo desses. A diferença principal é que enquanto a mentoria é um processo individual e continuado, a consultoria pode ser feita sob demandas pontuais de uma pessoa ou empresa, por exemplo.

Na mentoria, o profissional passa por processo de alinhamento de objetivos e metas com o cliente. A partir daí, o mentor cria um plano de trabalho que será desenvolvido em um número predeterminado de encontros semanais ou quinzenais para o alcance das metas do mentorado.

Aqui na EC, por exemplo, eu ofereço a mentoria de escrita criativa para autores que têm uma ideia, mas não sabem como desenvolvê-la. Confira!

Na consultoria também existe o alinhamento de expectativas e objetivos. Não obstante, o contratante, seja empresa ou pessoa física, contata o consultor para tirar dúvidas ou pedir acompanhamento para demandas específicas, como na criação de um texto de blog ou de um documento, por exemplo.

Aulas particulares

Das que mencionei aqui, aula particular é uma das ocupações mais comuns. Assim como a mentoria, ela consiste em um acompanhamento individualizado que foca nas dificuldades e limitações do aluno.

Entretanto, diferente da mentoria, a aula particular é voltada para disciplinas curriculares, temas desenvolvidos em ambientes de formação, escolas ou cursinhos. O conteúdo que envolve o profissional no texto pode variar de redação de ENEM e concursos para língua portuguesa.

As aulas podem variar de uma a duas horas ou em um encontro ou mais por quinzena. Depende das necessidades do aluno e disponibilidade do professor.

Produção de conteúdo para as redes sociais

Chegamos ao final com uma das minhas queridinhas do momento. Essa ocupação consiste em criar conteúdos em diversos formatos para as redes sociais de um cliente, seja ele empresa ou pessoa física.

Os objetivos variam muito: alguns clientes buscam criar ou fortalecer a identidade da marca e o relacionamento com o cliente, atrair o público para um assunto ou produto ou se tornar referência sobre uma área de conhecimento específica.

Assim, é necessário um alinhamento entre cliente e profissional para que os objetivos, as metas, o tom de voz a ser utilizado e as estratégias corretas sejam definidos. Além de ser criativo e escrever, é importante que produtor de conteúdo tenha noções de marketing, publicidade e, claro, ferramentas específicas para esse ofício.

Os critérios para firmar um contrato podem ser definidos por tempo de vigência, quantidade de demandas, campanhas específicas ou todos esses.

Vale ressaltar que existem várias outras além das ocupações mencionadas nesse artigo. No universo das Letras, ainda há muito o que explorar.

E aí, o que você achou dessas ocupações? Tem interesse, trabalha ou já trabalhou com alguma delas? Compartilhe com a gente! 🙂

Publicado por Ana Itagiba

Sou editora, revisora e mentora literária formada em Letras pela UFG. Também atuo como produtora cultural e de conteúdo para web. Autora das dramaturgias publicadas Patético Oásis e O experimento.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: